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Atlas de Anatomia Veterinária

Anta (Tapirus terrestris)

DESCRIÇÃO GERAL

Nome científico: Tapirus terrestris

Nome comum: Anta.

Estado de conservação: IUCN VU / CITES Ap II

Descrição: Comprimento corporal total: 1,8-2,5 m de largura e 0,7-1,0 m de altura. Peso: 250 kg.

 

Distribuição: Desde o norte de Colômbia até o norte da Argentina.

 

Habitat: Bosques primários de floresta alta e várzea. Mamífero terrestre de hábitos diurnos e noturnos.

 

Reprodução: Período de gestação: 392-405 dias.

Prolificidade: 1 filhote por gestação.

 

Hábitos alimentares: São herbívoros e consomem frutos variados e algumas plantas aquáticas.

 

APARELHO DIGESTÓRIO

Língua

A língua da anta é um órgão muscular, que se divide em ápice, corpo e raiz. Na língua da anta foi observada a presença de papilas mecânica (lenticulares, filiformes e cônicas) cornificadas e papilas gustativas (fungiformes e folhadas). Na posição lateral à raiz da língua e, já na orofaringe, se encontram as tonsilas palatinas.

 

Estômago

O estômago da anta é monocavitário, ligado ao esôfago pelo cárdia, e disposto no antímero esquerdo. O estômago se une caudalmente ao piloro duodenal localizado no antímero direito.

A curvatura maior do estômago se situa caudoventralmente e a curvatura menor craniodorsalmente. No estômago se pode identificar um fundo pouco desenvolvido, um corpo e uma porção pilórica composta pelo antro e pelo canal pilórico. No piloro se encontra o torus pilórico, que também caracteriza espécies como o suíno e os bovinos.

A anta desenvolveu um estômago semelhante ao do cavalo, caracterizado por apresentar uma extensa superfície glandular no corpo e na parte pilórica e uma mucosa aglandular na região do fundo e na região do cárdia. Ambas as superfícies, glandular e aglandular, estão separadas pela margem pregueada.

 

Intestino

O intestino dos herbívoros atinge um comprimento 25 vezes maior que o comprimento corporal, sendo consideravelmente mais longo que em carnívoros, onde pode alcançar apenas um comprimento de três a quatro vezes ao comprimento corporal. Na anta, o comprimento total do intestino atingiu 5,3 vezes o comprimento corporal.

 

Intestino delgado

O intestino delgado está localizado entre o piloro e o óstio ileal. Suas alças estão situadas no espaço entre o fígado e o estômago (cranialmente) e a entrada da pelve (caudalmente). É formado por três porções:

  • Duodeno: a porção mais proximal do intestino delgado se estende entre o piloro e a flexura duodenojejunal;

  • Jejuno: é a porção de maior comprimento. O grande desenvolvimento do cólon faz com que o jejuno seja deslocado para o lado direito;

  • Íleo: é um curto segmento que se une ao ceco por meio da prega íleocecal. Sua espessa camada muscular impede o refluxo do conteúdo intestino grosso.

 

Intestino grosso

Na anta, as porções e a disposição do intestino grosso lembram em grande parte a dos equinos. Suas três porções são:

  • Ceco. Em todos os mamíferos, é a parte mais variável do intestino grosso. O ceco da anta é altamente desenvolvido (60 cm de comprimento) e ocupa grande parte do flanco direito. A superfície externa do ceco é envolta por três bandas ou tênias que determinam a formação de quatro fileiras de saculações ou haustras. O ceco da anta funciona como câmara de fermentação para a digestão de celulose. Na anta, como nos equinos, o volume do ceco é aumentado devido essa espécie não realizar processos fermentativos no estômago que, de alguma forma melhorem a digestibilidade da ingesta. Após o ceco, a ingesta passa ao cólon através do óstio ceco-cólico;

  • Cólon. O cólon ascendente da anta é semelhante ao do cavalo, ainda que as dimensões sejam consideravelmente menores na anta. Possui formato de ferradura dupla, de forma que se podem definir quatro segmentos longitudinais característicos separados por diversas flexuras;

       Cólon ventral direito;

       Flexura esternal;

       Cólon ventral esquerdo;

       Flexura pélvica;

       Cólon dorsal esquerdo;

       Flexura diafragmática;

       Cólon dorsal direito.

Devido sua extensão e capacidade, o cólon ascendente da anta poderia ser denominado, assim como nos equinos, cólon maior, enquanto que o descendente poderia receber o nome de cólon menor. Os segmentos ventrais e dorsais apresentam duas tênias e duas fileiras de hautras. O cólon transverso é curto e se continua com o cólon descendente longo e flexível que chega até a entrada da cavidade pélvica.

  • Reto. Está situado na cavidade pélvica e termina no canal anal.

Na Tabela 24 encontram-se as dimensões (em cm) das diferentes partes do aparelho digestório da anta.

Fígado

O fígado é protegido pelas costelas na porção intratorácica da cavidade abdominal. Possui uma face diafragmática, em contato com o diafragma, e uma face visceral, em contato com o estômago e o intestino.

Os lobos hepáticos são separados por incisuras ou fissuras interlobares. O padrão lobar do fígado da anta, que é semelhante ao dos equinos, é o seguinte:

  • Lobo lateral esquerdo;

  • Lobo medial esquerdo;

  • Lobo quadrado, que possui ventralmente as incisuras umbilicais;

  • Lobo quadrado, que se diferenciam os processos papilar e caudado;

  • Lobo direito.

Assim como cavalo, a anta não apresenta vesícula biliar.

 

APARELHO RESPIRATÓRIO

A troca gasosa entre o ar e sangue ocorre nos alvéolos pulmonares. Até chegar aos alvéolos, o ar inspirado atravessa a cavidade nasal, nasofaringe, laringe, traqueia e brônquios, incluindo as diferentes subdivisões que estes possuem.

 

Laringe

A laringe é um órgão tubular cartilaginoso que liga a nasofaringe com a traqueia. A cartilagem aritenoide da anta não apresenta processo cuneiforme. Observam-se as pregas vestibular e vocais limitando o ventrículo laríngeo.

 

Traqueia

A traqueia é formada por um conjunto de cartilagens unidas pelos ligamentos anulares. As cartilagens traqueais são abertas dorsalmente, embora as extremidades permaneçam unidas mediante o músculo traqueal. As cartilagens da traqueia da anta apresentam uma secção aproximadamente circular. O músculo traqueal se insere internamente nas extremidades da cartilagem traqueal. A traqueia termina se bifurcando em dois curtos brônquios principais.

 

Árvore brônquica e pulmões

A árvore brônquica é formada por sucessivas divisões dos brônquios principais. Cada um dos brônquios principais se ramifica em diversos brônquios lobares. Esses, acompanhados por artérias, veias, vasos linfáticos e ramos nervosos, penetram o pulmão atravessando o hilo do órgão. O conjunto de estruturas que atravessam o hilo pulmonar recebe a denominação de raiz do pulmão.

A divisão dos brônquios principais em brônquios lobulares determina o padrão de lobação do pulmão. A lobação dos pulmões da anta, que é semelhante à dos ruminantes, é a seguinte:

Pulmão esquerdo:

  • Lobo cranial, dividido em porção cranial e caudal;

  • Lobo caudal.

Pulmão direito:

  • Lobo cranial, dividido nas porções cranial e caudal;

  • Lobo médio;

  • Lobo caudal;

  • Lobo acessório.

No pulmão é possível identificar uma superfície de contato com a parede costal (face costal), uma superfície em direção ao mediastino (face medial) e uma face diafragmática que está em contato com o diafragma.

 

APARELHO URINÁRIO

Rins

Os rins são órgãos retroperitoniais que se localizam dorsalmente na cavidade abdominal e em ambos os antímeros da coluna vertebral. O rim direito, mais cranial que o esquerdo, está em contato com o lobo lateral direito e o processo caudado do fígado.

O córtex do rim possui uma coloração marrom e a medula renal está subdividida em segmentos de forma piramidal ou pirâmides renais. A base de cada pirâmide renal conecta ao córtex, e os vértices medulares constituem as papilas renais que adentram de forma independente nos cálices renais. Os cálices renais mantêm estreita relação com a pelve renal. Devido o córtex não apresentar divisões externas e apresentar pirâmides renais, ele é classificado como liso e multipiramidal.

Na borda medial do rim se localiza o hilo renal, onde se identificam as estruturas que entram (artéria renal) e saem (veia renal e ureter) do rim. Através do hilo chega-se ao seio renal, onde se localiza a pelve renal.

 

Ureter e bexiga

O ureter é uma estrutura tubular que transporta a urina da pelve renal para a bexiga urinária, onde é armazenada. A bexiga urinária se localiza no assoalho da cavidade pélvica, onde se insere no abdome; quando repleta se estende amplamente na cavidade abdominal.

 

Uretra

A uretra é o canal de excreção da urina para o meio externo. A uretra feminina é curta e desemboca no óstio uretral externo, localizado ventralmente entre a vagina e o vestíbulo da vagina. A uretra masculina, que possui uma porção pélvica e outra peniana, é o canal excretor de urina e sêmen.

 

APARELHO REPRODUTOR FEMININO

Ovários

Os ovários produzem os ovócitos ou gametas femininos, os quais são também são armazenados e maturados nessa estrutura. Os ovários atuam também como uma glândula endócrina. Os ovários da anta se encontram na posição dorsal na cavidade abdominal. As principais formações funcionais do ovário (folículos e corpos lúteos) podem ser observadas externamente, pois são salientes e estão expostas no córtex do ovário. O ovário se encontra dentro da bolsa ovárica.

 

Tuba uterina

A tuba uterina é a estrutura tubular que, após a ovulação, transporta os ovócitos do ovário até o útero. Na tuba uterina ocorre a fecundação. A tuba uterina, ou oviduto, está localizada na mesossalpinge, que é uma prega do peritônio que se origina do ligamento largo do útero.

A mesossalpinge, junto com o mesovário e o ligamento próprio do ovário, participam na formação da bolsa ovárica. Na anta, a bolsa ovárica não envolve completamente o ovário.

 

Útero

O útero abriga o embrião ou feto durante seu desenvolvimento. As glândulas endometriais produzem secreções que nutrem o ovário antes da formação da placenta. O útero da anta é bicórneo. Os cornos do útero são intrabdominais e se fundem caudalmente formando um único corpo uterino de tamanho reduzido. A gestação ocorre nos cornos uterinos.

O colo uterino (ou cérvix) se caracteriza por apresentar pregas longitudinais na mucosa, que permite isolar o útero do meio externo, de modo que o lúmen do canal cervical se abre em momentos como o parto e o estro. Um septo mediano (não visível externamente) divide a porção cranial do corpo uterino.

 

Vagina

A vagina é o órgão copulador feminino e se estende do colo uterino (óstio externo do útero) até a desembocadura da uretra (óstio uretral externo). Mais caudalmente se encontra o vestíbulo da vagina, compartilhado pelos tratos genital e urinário.

 

Vulva

A vulva é formada por dois lábios que se unem nas comissuras vulvares dorsal e ventral, de forma que a fenda vulvar é alongada verticalmente. O clitóris, que possui uma estrutura parcialmente homóloga ao pênis, se localiza ventralmente na fossa do clitóris.

 

Placentação

A placenta dos mamíferos eutérios é uma estrutura formada pela união de membranas fetais e tecidos maternos. Sua principal função consiste em regular a troca fisiológica entre feto e mãe, embora também atue como um importante órgão endócrino durante a gestação.

A placenta da anta é uma placenta epiteliocorial, pois existe o contato direto das células do córion fetal com o epitélio uterino materno. Não existe perda de epitélio uterino nem na formação da placenta nem no momento do parto, consequentemente, é classificada como placenta adecídua. Levando em conta que as microvilosidades que permitem o contato entre o feto e a mãe se encontram amplamente distribuídos na superfície placentária, esta placenta é classificada como difusa. As extremidades do saco coriônico são apêndices necróticos.

 

APARELHO REPRODUTOR MASCULINO

Os órgãos genitais masculinos são responsáveis pela formação, maturação, transporte e emissão das células germinais masculinas ou espermatozoides.

 

Testículos

Os testículos são órgãos endócrinos produtores de espermatozoides. Nos mamíferos adultos os testículos são geralmente extra-abdominais e se localizam na região inguinal dentro do escroto. Os testículos dos mamíferos estão envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo, a túnica albugínea. O tecido conjuntivo também se acumula na zona central do testículo, onde forma o mediastino testicular; do mediastino convergem septos de tecido conjuntivo que se estendem até a túnica albugínea. Entre os septos estão dispostos lóbulos no parênquima testicular, que incluem os túbulos seminíferos, onde são gerados os espermatozoides. Os túbulos seminíferos confluem, dentro do mediastino testicular na rede testicular. Esta última continua mediante os ductos eferentes, que saem do testículo para se inserir na cabeça do epidídimo.

 

Epidídimo

O epidídimo é um órgão unido ao testículo, os espermatozoides são maturados e armazenados até a ejaculação. É constituído por cabeça, corpo e cauda. Na cabeça do epidídimo se localizam os ductos eferentes advindos da rede testicular, que confluem para formar o ducto epididimário que é bastante tortuoso e está disposto no corpo e na cauda do epidídimo.

A união do testículo e corpo do epidídimo forma o escroto. Depois da cauda do epidídimo, o ducto epididimário continua no ducto deferente. O ligamento da cauda do epidídimo une esta estrutura às túnicas testiculares. O ligamento próprio do testículo mantém unidos o testículo com a cauda do epidídimo.

 

Ducto deferente

O ducto epididimário continua no ducto deferente, que prossegue no cordão espermático. O cordão espermático, além do ducto deferente, contém a artéria testicular,  o plexo pampiniforme (equivalente à veia testicular), e fibras simpáticas, vasos linfáticos e o processo vaginal. O cordão espermático passa através do canal inguinal e entra na cavidade abdominal, onde seus componentes se separam. O ducto deferente entra na cavidade pélvica, onde desemboca no colículo seminal, na porção prostática da uretra pélvica.

 

Glândulas genitais acessórias 

O sêmen é formado por espermatozoides e pelas secreções produzidas pelo conjunto de glândulas genitais acessórias do macho. Estas glândulas estão localizadas nas proximidades da porção pélvica da uretra. Na anta basicamente se identificam:

  • Embora não se tenha observado macroscopicamente, é provável que a anta tenha ampola do ducto deferente, uma dilatação do ducto antes de desembocar na uretra;

  • A glândula vesicular, com um aspecto claramente contornado, que desemboca no ducto deferente próximo do colículo seminal;

  • A próstata, bem volumosa e difusa, que se localiza sobre a uretra e bem próxima a glândula vesical.

 

Pênis

O pênis ou órgão copulador do macho se origina no arco isquiático com dois pilares que se unem e formam a raiz do pênis que continua cranialmente; segue como corpo do pênis que termina com a glande.

O pênis é formado por dois corpos cavernosos e por um corpo esponjoso. Os corpos cavernosos apresentam maior desenvolvimento em nível da base e no corpo do pênis; e o corpo esponjoso está localizado no sulco uretral e envolve em toda sua extensão à uretra. A glande do pênis é principalmente constituída por corpo esponjoso. Na extremidade distal da glande do pênis se localiza o óstio uretral externo.

O pênis da anta é do tipo músculo-cavernoso. A glande apresenta um diâmetro consideravelmente maior que a do corpo, de forma que, é facilmente distinguida. Na glande do pênis da anta se observa o processo uretral. Finalmente, a principal caraterística do pênis da anta é a presença de formações laterais no nível do colo da glande.

 

CORAÇÃO E GRANDES VASOS

O coração dos mamíferos apresenta quatro câmaras:

  • Átrio esquerdo;

  • Ventrículo esquerdo;

  • Átrio direito;

  • Ventrículo direito.

O átrio esquerdo do coração recebe o sangue oxigenado dos pulmões. O sangue segue ao ventrículo esquerdo e dele, por meio da aorta e suas ramificações, se distribuem aos diferentes aparelhos e sistemas orgânicos. O sangue venoso retorna ao átrio direito do coração por meio das veias cava cranial e cava caudal. O sangue flui do átrio direito ao ventrículo direito que o impulsiona ao tronco pulmonar e às artérias pulmonares para alcançar os pulmões. Finalmente, as veias pulmonares transportam o sangue oxigenado ao átrio esquerdo.

Na anta o padrão de ramificação do arco aórtico é semelhante ao dos equinos. O arco aórtico origina unicamente o tronco braquiocefálico. Por sua vez, o tronco braquiocefálico emite as artérias subclávias direita e esquerda e o tronco bicarotídeo.

 

BAÇO

O baço é um órgão linfoide que se localiza junto à curvatura maior do estômago, ao qual se une por meio do ligamento gastroesplênico. Possui coloração vermelha escura e formato alongado, com a extremidade dorsal maior que a ventral. Pode-se identificar uma face diafragmática e uma face visceral. O baço da anta apresenta hilo difuso ao longo da face visceral, onde penetram as ramificações da artéria e veia esplênicas.

CRÂNIO