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Atlas de Anatomia Veterinária

Ariranha (Pteronura brasiliensis)

DESCRIÇÃO GERAL

Nome científico: Pteronura brasiliensis

Nome comum: Ariranha.

Estado de Conservação: IUCN EN / CITES Ap I

Descrição: Comprimento corporal: 1,5-1,8 cm; Peso: 25-32 kg

Distribuição: Floresta úmida tropical da América do Sul até o norte da Argentina.

Habitat: Vive nos rios, lagoas e zonas de inundação.

Hábitos diurnos. Vive em grupos familiares de até 10 indivíduos, composto por um casal de adultos e seus filhotes.

Reprodução: Sazonalidade: Sim.

Gestação: 65-70 dias.

Prolificidade: 2-5 crias por gestação.

Hábitos alimentares: Hábitos carnívoros. Alimenta-se basicamente de peixes.

APARELHO DIGESTÓRIO

O aparelho digestório da ariranha é muito semelhante ao dos carnívoros domésticos.

 

Língua

A língua da ariranha é muscular. Divide-se em ápice, corpo e raiz. Observam-se papilas mecânicas (lenticulares, filiformes e cônicas) cornificadas e papilas gustativas (fungiformes e circunvaladas).

Na posição lateral à raiz da língua, e já na orofaringe, se encontram as tonsilas palatinas.

Estômago

O estômago da ariranha é monocavitário, ligado ao esôfago pelo cárdia, e disposto no antímero esquerdo. O estômago se une caudalmente ao piloro duodenal localizado no antímero direito.

A curvatura maior do estômago se situa caudoventralmente, enquanto que a curvatura menor se dispõe craniodorsalmente. Como em outros carnívoros, no estômago é possível identificar um fundo pouco desenvolvido, um corpo e uma parte pilórica composta pelo antro e canal pilórico. Toda a mucosa do estômago tem caráter glandular.

Intestino

Intestino delgado

O intestino delgado se situa entre o piloro e o óstio ileal. Suas alças estão dispostas no espaço entre o fígado e estômago (cranial) e a entrada da pelve (caudal). É composto por três porções:

  • Duodeno: a porção mais proximal do intestino delgado, estendendo-se entre o piloro e a flexura duodeno-jejunal;

  • Jejuno: é a porção de maior comprimento;

  • Íleo: é um pequeno segmento que se relaciona com o cólon através do óstio ileal. Sua camada muscular espessa impede o refluxo de conteúdo do intestino grosso.

Intestino grosso

O intestino grosso se estende desde o óstio ileal até o ânus. Suas três porções são:

  • Ceco. É a porção mais variável do intestino grosso. A ariranha não possui ceco. Os mamíferos carnívoros puros têm um pequeno ceco em relação ao tamanho do intestino grosso, ou inclusive pode realmente estar ausente. Os herbívoros, ao contrário, possuem um ceco e cólon bem desenvolvidos. O volume do ceco é geralmente relacionado com a proporção de celulose no alimento, exceto no caso dos mamíferos capazes de realizar processos fermentativos em seu estômago policavitário;

  • Cólon. Como em carnívoros domésticos, o cólon da ariranha é muito simples, constituído pelo cólon ascendente, muito curto e disposto à direita da cavidade abdominal; cólon transverso, disposto transversalmente atrás do estômago, passando da direita para a esquerda da cavidade abdominal; cólon descendente, mais longo e chega até a entrada da cavidade pélvica. O diâmetro do cólon é semelhante ao do jejuno;

  • Reto. Está localizado na cavidade pélvica e termina no canal anal.

Fígado

O fígado é protegido pelas costelas na porção intratorácica da cavidade abdominal. Apresenta uma face diafragmática em contato com o diafragma, e uma face visceral em contato com o estômago.

Nos carnívoros, os lobos hepáticos são separados por incisuras ou fissuras interlobares profundas. Na ariranha, as fissuras são especialmente marcadas, permitindo o deslizamento dos lobos entre si durante grandes movimentos de extensão e de flexão do tronco.

O padrão lobar do fígado da ariranha, que é semelhante a carnívoros domésticos é o seguinte:

  • Lobo lateral esquerdo;

  • Lobo medial esquerdo;

  • Lobo quadrado;

  • Lobo caudado, em que se diferenciam o processo papilar e o processo caudado;

  • Lobo medial direito;

  • Lobo lateral direito.

A vesícula biliar está localizada entre o lobo quadrado e o lobo medial direito.

 

APARELHO RESPIRATÓRIO

A troca gasosa entre o ar e o sangue ocorre nos alvéolos pulmonares. Para alcançar os alvéolos, o ar inspirado atravessa a cavidade nasal, nasofaringe, laringe, traqueia e brônquios, incluindo as diferentes subdivisões que eles apresentam.

 

Laringe

A laringe é um órgão tubular cartilaginoso que comunica a nasofaringe com traqueia. Como nos carnívoros domésticos, o vestíbulo da laringe apresenta um ventrículo laríngeo em cada lado, que está disposto entre as pregas vestibular e vocal. A cartilagem aritenoide da ariranha apresenta os dois processos, corniculado e cuneiforme.

 

Traqueia

A traqueia é formada por um conjunto de cartilagens unidas entre si pelos ligamentos anulares. As cartilagens ou anéis traqueais estão abertos dorsalmente, embora as extremidades sejam unidas internamente pelo músculo traqueal. A traqueia termina bifurcando-se em dois curtos brônquios principais.

 

Árvore brônquica e pulmões

A árvore brônquica é formada por sucessivas divisões dos brônquios principais. Cada um dos brônquios principais se ramifica em vários brônquios lobares. Esses, acompanhados de artérias, veias, vasos linfáticos e ramos nervosos penetram no pulmão através do hilo do órgão. O conjunto de estruturas que atravessa o hilo pulmonar recebe o nome de raiz do pulmão.

A divisão dos brônquios principais em brônquios lobares determina o padrão de lobação do pulmão. A lobação dos pulmões da ariranha é a seguinte:

Pulmão esquerdo:

  • Lobo cranial, dividido em parte cranial e caudal;

  • Lobo caudal.

Pulmão direito:

  • Lobo cranial;

  • Lobo médio;

  • Lobo caudal;

  • Lobo acessório.

No pulmão é possível diferenciar uma superfície de contato com a parede costal (face costal), uma superfície voltada para o mediastino (face medial) e uma face diafragmática que se relaciona com o diafragma.

 

APARELHO URINÁRIO

Rins

Os rins são órgãos retroperitoneais, dorsalmente dispostos na cavidade abdominal e em ambos os antímeros da coluna vertebral. O rim direito, que é mais cranial que o esquerdo, não entra em contato com o fígado.

Os rins da ariranha possuem forma ovalada e o córtex renal apresenta coloração marrom clara. O aspecto superficial, marcado pela presença de sulcos e lobações, lembra os rins dos bovinos. A medula renal, mais escura, é claramente dividida em segmentos em formato piramidal ou pirâmides renais. A base de cada pirâmide renal se conecta com o córtex, enquanto que o vértice constitui a papila renal. Na ariranha, as papilas renais estão intimamente relacionadas com os cálices renais. Na ariranha, assim como nos bovinos domésticos, não existe pelve renal.

A lobação do rim é visível tanto interna quanto externamente. Visto que o córtex aparece dividido externamente e que as pirâmides renais estão perfeitamente diferenciadas e individualizadas, o rim da ariranha, como na vaca, é considerado um rim lobado e multipiramidal.

Na borda medial do rim se encontra o hilo renal, onde se reconhecem estruturas que entram (artéria renal) e saem (veia renal e ureter) do rim. Por meio do hilo chega-se ao seio renal, onde se localiza a pelve renal.

 

Ureter e bexiga urinária

O ureter é uma estrutura tubular, que transporta a urina da pelve renal para a bexiga urinária, onde é armazenada. A bexiga urinária está localizada no assoalho da cavidade pélvica, onde se introduz no abdômen; quando repleta, se distende amplamente na cavidade abdominal.

 

Uretra

A uretra é o tubo de excreção de urina para o exterior. A uretra feminina é curta e desemboca no óstio uretral externo, localizado ventralmente entre o vestíbulo da vagina e a vagina. A uretra masculina possui uma porção pélvica e uma porção peniana, é o ducto excretório da urina e sêmen.

 

APARELHO REPRODUTOR MASCULINO

Os órgãos genitais masculinos são responsáveis pela formação, maturação, transporte e emissão das células germinativas masculinas ou espermatozoides.

 

Testículos

Os testículos são órgãos endócrinos produtores de espermatozoides. Nos mamíferos adultos os testículos são geralmente extra-abdominais e se localizam na região inguinal dentro do escroto. Os testículos dos mamíferos estão envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo, a túnica albugínea. O tecido conjuntivo também se acumula na zona central do testículo, onde forma o mediastino testicular; do mediastino convergem septos de tecido conjuntivo que se estendem até a túnica albugínea. Na ariranha, a organização não permite que o mediastino seja observado macroscopicamente. Entre os septos estão dispostos lóbulos no parênquima testicular, que incluem os túbulos seminíferos, onde são gerados os espermatozoides. Os túbulos seminíferos confluem, dentro do mediastino testicular na rede testicular que continua mediante os ductos eferentes que saem do testículo para se inserirem na cabeça do epidídimo.

 

Epidídimo 

O epidídimo é um órgão unido ao testículo, os espermatozoides são maturados e armazenados até a ejaculação. É constituído por cabeça, corpo e cauda. Na cabeça do epidídimo se localizam os ductos eferentes advindos da rede testicular, que confluem para formar o ducto epididimário que é bastante tortuoso e está disposto no corpo e na cauda do epidídimo.

A união do testículo e corpo do epidídimo forma o escroto. Depois da cauda do epidídimo, o ducto epididimário continua no ducto deferente. O ligamento da cauda do epidídimo une esta estrutura às túnicas testiculares. O ligamento próprio do testículo mantém unidos o testículo com a cauda do epidídimo.

 

Ducto deferente

O ducto epididimário continua no ducto deferente, que prossegue no cordão espermático. O cordão espermático, além do ducto deferente, contém a artéria testicular, o plexo pampiniforme (equivalente à veia testicular), e fibras simpáticas, vasos linfáticos e o processo vaginal. O cordão espermático passa através do canal inguinal e entra na cavidade abdominal, onde seus componentes se separam. O ducto deferente entra na cavidade pélvica, onde desemboca no colículo seminal, na porção prostática da uretra pélvica.

 

Glândulas genitais acessórias 

O sêmen é formado por espermatozoides e pelas secreções produzidas pelo conjunto de glândulas genitais acessórias do macho. Estas glândulas estão localizadas nas proximidades da porção pélvica da uretra. Na ariranha basicamente difere:

  • A ampola do ducto deferente, uma dilatação do ducto antes de desembocar na uretra. Essa glândula é difícil de diferenciar em uma visão macroscópica;

  • A próstata, muito volumosa e de formato difuso, desemboca na uretra e muito próxima da glândula vesicular;

  • Embora não tenha sido observada a glândula bulbouretral, é possível que exista na ariranha.

 

Pênis

O pênis é o órgão copulador masculino. Origina-se no arco isquiático com dois pilares que se unem formando a raiz do pênis, que continua caudalmente; segue então o corpo do pênis, que termina na glande.

O pênis da ariranha é musculocavernoso e é formado pelos corpos cavernosos e por um único corpo esponjoso. Os corpos cavernosos apresentam um maior desenvolvimento no nível dos pilares e no corpo do pênis, e o corpo esponjoso se localiza no sulco uretral e contorna a uretra em toda sua extensão. A glande do pênis é constituída principalmente por corpo esponjoso. A ariranha apresenta um osso peniano.

 

CORAÇÃO E GRANDES VASOS

O coração dos mamíferos possui quatro cavidades:

  • Átrio esquerdo;

  • Ventrículo esquerdo;

  • Átrio direito;

  • Ventrículo direito.

O átrio esquerdo do coração recebe o sangue oxigenado dos pulmões. O sangue entra no ventrículo esquerdo e por meio da aorta e seus ramos, é distribuído aos diferentes aparelhos e sistemas orgânicos. O sangue venoso retorna para o átrio direito do coração por meio das veias cava cranial e caudal.

O sangue flui do átrio direito para o ventrículo direito que o impulsiona até o tronco pulmonar e artérias pulmonares para alcançar os pulmões. Finalmente, as veias pulmonares transportam o sangue oxigenado para o átrio esquerdo.

Na ariranha o padrão de ramificação da aorta é muito semelhante ao dos carnívoros domésticos. O arco aórtico origina, sucessivamente, o troco braquiocefálico e a artéria subclávia esquerda. O tronco braquicefálico, por sua vez, origina o tronco bicarotídeo e a artéria subclávia direita.

 

BAÇO

O baço é um órgão linfoide situado ao longo da curvatura maior do estômago, ao qual é unido por meio do ligamento gastroesplênico. Apresenta coloração vermelha escura e sua forma é alongada e ligeiramente triangular, com a extremidade ventral de tamanho maior que a dorsal. Pode-se diferenciar uma face parietal e uma visceral. O baço da ariranha apresenta hilo difuso ao longo da face visceral, por onde entram os ramos da artéria e veia esplênica.

 

CRÂNIO