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Atlas de Anatomia Veterinária

Cutia (Dasyprocta fuliginosa)

DESCRIÇÃO GERAL

Nome científico: Dasyprocta fuliginosa

Nome comum: Cutia.

Estado de Conservação: IUCN LC

Descrição: Comprimento corporal total: 41.5-62 cm; Peso: 5 kg

Distribuição: Em toda a bacia do Amazonas, no Brasil, Venezuela, Equador, Colômbia e Peru. A espécie é bem comum em todas as florestas baixas e altas.

Hábitat: Habita em floresta primária, secundária e remanescente das florestas altas e de várzea. Mamífero terrestre de hábitos terrestres, diurnos e vespertinos, quase sempre solitário.

Reprodução: Não estacional.

Período de gestação: 100-100 dias.

Prolificidade: 2-3 crias por gestação.

Hábitos alimentares: Frutos e sementes, em particular de palmeiras, leguminosas e sapotáceas.

APARELHO DIGESTÓRIO

Língua

A língua é um órgão muscular que se divide em ápice, corpo e raiz. Na língua da cutia se observam papilas mecânicas (lenticulares, filiformes e cônicas) cornificadas e papilas gustativas (fungiformes, folhadas e circunvaladas).

Estômago

O estômago da cutia é monocavitário, ligado ao esôfago pelo cárdia, e disposto no antímero esquerdo. O estômago se une caudalmente ao piloro duodenal localizado no antímero direito.

A curvatura maior do estômago se localiza caudoventralmente e a curvatura menor, craniodorsalmente. No estômago é possível identificar um fundo pouco desenvolvido, um corpo e uma porção pilórica composta pelo antro e canal pilórico.

Intestino

O intestino dos herbívoros atinge um comprimento 25 vezes maior que o comprimento corporal, sendo consideravelmente mais longo que em carnívoros, onde pode alcançar apenas um comprimento de 3 a 4 vezes ao comprimento corporal. Na cutia, provavelmente devido sua condição frugívora, o comprimento total do intestino atinge 12,3 vezes ao do corpo.

Intestino delgado

O intestino delgado está localizado entre o piloro e o óstio ileal. Suas alças se situam no espaço entre o fígado e o estômago (cranialmente) e a entrada da pelve (caudalmente). É formado por três porções:

  • Duodeno: a porção mais proximal do intestino delgado se estende entre o piloro e a flexura duodenojejunal;

  • Jejuno: é a porção de maior comprimento;

  • Íleo: é um curto segmento que se une ao ceco por meio da prega íleocecal. Sua espessa camada muscular impede o refluxo do conteúdo do intestino grosso.

Intestino grosso

O intestino grosso se estende do óstio ileal ao ânus. Suas três porções são:

  • Ceco. É a porção mais variável do intestino grosso. O ceco da cutia é bem volumoso (aprox. 30 cm de comprimento e 8 cm de largura). Os herbívoros muitas vezes possuem um ceco e um cólon bem desenvolvidos. O volume cecal geralmente está relacionado com a proporção de celulose do alimento, e isso justificaria o tamanho, em comprimento e espessura, do ceco da cutia. O ceco da cutia é consideravelmente menor que o da paca, e se diferencia por não apresentar tênias ou haustras;

  • Cólon. Semelhante aos herbívoros domésticos, o cólon da cutia é bem desenvolvido, formado pelo cólon ascendente, transverso e descendente. O cólon ascendente, que não apresenta tênias ou haustras, se origina como uma continuação do ceco atingindo inicialmente certa espessura. Como na paca ou nos ruminantes, o cólon ascendente possui também uma alça espiral em forma de disco com um giro centrípeto que na flexura central prossegue com um giro centrífugo; cólon transverso é curto e continua com o cólon descendente e que alcança a entrada da cavidade pélvica; o cólon descendente da cutia é consideravelmente menor que o da paca. O diâmetro do cólon transverso e descendente é semelhante ao do jejuno;

  • Reto. Está localizado na cavidade pélvica e termina no canal anal.

Na Tabela 21 encontram-se as dimensões (em cm) das diferentes porções do aparelho digestório da cutia.

 

Fígado

O fígado é protegido pelas costelas na porção intratorácica da cavidade abdominal. Possui uma face diafragmática, em contato com o diafragma, e uma face visceral, em contato com o estômago.

Os lobos hepáticos são separados por incisuras ou fissuras interlobares. O padrão lobar do fígado de cutia é o seguinte:

  • Lobo lateral esquerdo;

  • Lobo medial esquerdo;

  • Lobo quadrado;

  • Lobo caudado, onde é possível identificar o processo papilar e o processo caudado;

  • Lobo medial direito;

  • Lobo lateral direito.

A vesícula biliar se localiza entre o lobo quadrado e o lobo medial direito.

 

APARELHO RESPIRATÓRIO

A troca gasosa entre o ar e sangue ocorre nos alvéolos pulmonares. Até chegar aos alvéolos, o ar inspirado atravessa a cavidade nasal, nasofaringe, laringe, traqueia e brônquios, incluindo as diferentes subdivisões que possuem.

Laringe

A laringe é um órgão tubular cartilaginoso que liga a nasofaringe com a traqueia. A laringe da cutia é caracterizada pela cartilagem aritenoide que apresenta o processo corniculado, mas não o processo cuneiforme, e nem se visualiza o ventrículo laríngeo.

Traqueia

A traqueia é formada por um conjunto de cartilagens unidas pelos ligamentos anulares. As cartilagens ou anéis traqueais são abertos dorsalmente, embora as extremidades permaneçam unidas mediante o músculo traqueal. As cartilagens traqueais da cutia possuem uma secção ovalada onde o diâmetro horizontal é maior. O músculo traqueal se insere internamente às extremidades da cartilagem traqueal. A traqueia termina se bifurcando em dois curtos brônquios principais.

Árvore brônquica e pulmões

A árvore brônquica é formada por sucessivas divisões dos brônquios principais. Cada um dos brônquios principais se ramifica em diversos brônquios lobares. Esses, acompanhados por artérias, veias, vasos linfáticos e ramos nervosos, penetram o pulmão atravessando o hilo do órgão. O conjunto de estruturas que atravessam o hilo pulmonar recebe a denominação de raiz do pulmão.

A divisão dos brônquios principais em brônquios lobulares determina o padrão de lobação do pulmão. A lobação dos pulmões da cutia é a seguinte:

Pulmão esquerdo:

  • Lobo cranial, dividido em porções cranial e caudal;

  • Lobo caudal.

Pulmão direito:

  • Lobo cranial;

  • Lobo médio;

  • Lobo caudal;

  • Lobo acessório.

No pulmão é possível identificar uma superfície de contato com a parede costal (face costal), uma superfície em direção ao mediastino (face medial) e uma face diafragmática que está em contato com o diafragma.

APARELHO URINÁRIO

Rins

Os rins são órgãos retroperitoniais que se localizam dorsalmente na cavidade abdominal e em ambos os antímeros da coluna vertebral. O rim direito, mais cranial que o esquerdo, está em contato com o lobo lateral direito e o processo caudado do fígado.

O córtex renal possui coloração marrom escura. Semelhante aos roedores, no rim da cutia as pirâmides se encontram fusionadas. Além disso, se visualiza uma crista renal, que se mantém em estreita relação com a pelve renal. Devido o córtex não possuir divisão externamente e não possuem pirâmides renais, este rim é classificado como liso e unipiramidal.

Na borda medial do rim se localiza o hilo renal, onde se identificam as estruturas que entram (artéria renal) e saem (veia renal e ureter) do rim. Através do hilo chega-se ao seio renal, onde se localiza a pelve renal.

Ureter e bexiga urinária

O ureter é uma estrutura tubular que transporta a urina da pelve renal para a bexiga urinária, onde é armazenada. A bexiga urinária se localiza no assoalho da cavidade pélvica, onde se introduz ao abdome; quando está repleta se estende amplamente na cavidade abdominal.

Uretra

A uretra é o canal de excreção da urina para o meio externo. A uretra feminina é curta e desemboca no óstio uretral externo, localizado ventralmente entre a vagina e o vestíbulo da vagina. A uretra masculina possui uma porção pélvica e outra peniana, é o canal excretor de urina e sêmen.

APARELHO REPRODUTOR FEMININO

Ovários

Os ovários produzem os ovócitos ou gametas femininos, os quais são também são armazenados e maturados nesta estrutura. Os ovários atuam também como uma glândula endócrina. Os ovários da cutia se localizam imediatamente caudais aos rins, em posição dorsal na cavidade abdominal. As principais formações funcionais do ovário (folículos e corpos lúteos) não são observáveis externamente, pois não estão salientes ou visíveis no córtex do ovário.

Tuba uterina

A tuba uterina é a estrutura tubular que, após a ovulação, transporta os ovócitos do ovário ao útero. Na tuba uterina ocorre a fecundação. A tuba uterina, ou oviduto, está localizada na mesossalpinge, que é uma prega do peritônio que se origina do ligamento largo do útero.

A mesossalpinge, junto com o mesovário e o ligamento próprio do ovário, participam na formação da bolsa ovárica. Na cutia, a bolsa ovárica não envolve completamente o ovário.

Útero

O útero abriga o embrião ou feto durante seu desenvolvimento. As glândulas endometriais produzem secreções que nutrem o ovário antes da formação da placenta. O útero da cutia é duplo. Ambos os cornos do útero são intrabdominais e continuam caudalmente com dois colos uterinos completamente independentes um do outro. A gestação ocorre nos cornos uterinos. O colo uterino (ou cérvix) se caracteriza por ser duplo e por possuir espessa parede muscular que isola o útero do exterior, de modo que o lúmen do canal cervical só se abre em momentos como o parto e o estro.

 

Vagina

A vagina é o órgão copulador feminino e se estende do colo uterino (óstio externo do útero) até a desembocadura da uretra (óstio uretral exerno). Na cutia, que possui dois colos uterinos, estão presentes dois óstios externos do útero. Mais caudalmente se localiza o vestíbulo da vagina, compartilhado pelos tratos genital e urinário.

Vulva

A vulva é formada por dois lábios que se unem nas comissuras vulvares dorsal e ventral, de forma que a fenda vulvar é alongada verticalmente. O clitóris, que possui uma estrutura parcialmente homóloga ao pênis, se localiza ventralmente na fossa do clitóris.

Placentação

A placenta dos mamíferos eutérios é uma estrutura formada pela união de membranas fetais e tecidos maternos. Sua principal função consiste em regular a troca fisiológica entre o feto e a mãe, embora também atue como um importante órgão endócrino durante a gestação.

A placenta da cutia é uma placenta hemocorial, pois contata diretamente o córion fetal com o sangue materno. A perda de endométrio ocorre durante a formação da placenta e também no nascimento, por isso a placenta se classifica como decídua. O feto se fixa nas paredes uterinas por meio de uma estrutura de grande tamanho chamada subplacenta que melhora a união materno-fetal e é um órgão eminentemente endócrino. Devido à forma de disco dessa estrutura, a placenta da cutia se define como discoide.

APARELHO REPRODUTOR MASCULINO

Os órgãos genitais masculinos são responsáveis pela formação, maturação, transporte e emissão das células germinais masculinas ou espermatozoides.

Testículos

Os testículos são órgãos endócrinos produtores de espermatozoides. Nos mamíferos adultos os testículos são geralmente extra-abdominais e se localizam na região inguinal dentro do escroto. Os testículos dos mamíferos estão envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo, a túnica albugínea. O tecido conjuntivo também se acumula na zona central do testículo, onde forma o mediastino testicular; do mediastino convergem septos de tecido conjuntivo que se estendem até a túnica albugínea. Entre os septos estão dispostos lóbulos no parênquima testicular, que incluem os túbulos seminíferos, onde são gerados os espermatozoides. Os túbulos seminíferos confluem, dentro do mediastino testicular na rede testicular. Essa última continua mediante os ductos eferentes, que saem do testículo para se inserir na cabeça do epidídimo.

Epidídimo 

O epidídimo é um órgão unido ao testículo, os espermatozoides são maturados e armazenados até a ejaculação. É constituído por cabeça, corpo e cauda. Na cabeça do epidídimo se localizam os ductos eferentes advindos da rede testicular, que confluem para formar o ducto epididimário que é bastante tortuoso e está disposto no corpo e na cauda do epidídimo.

A união do testículo e corpo do epidídimo forma o escroto. Depois da cauda do epidídimo, o ducto epididimário continua no ducto deferente. O ligamento da cauda do epidídimo une esta estrutura às túnicas testiculares. O ligamento próprio do testículo mantém unidos o testículo com a cauda do epidídimo.

Ducto deferente

O ducto epididimário continua no ducto deferente, que prossegue no cordão espermático. O cordão espermático, além do ducto deferente, contém a artéria testicular, o plexo pampiniforme (equivalente à veia testicular), e fibras simpáticas, vasos linfáticos e o processo vaginal. O cordão espermático passa através do canal inguinal e entra na cavidade abdominal, onde seus componentes se separam. O ducto deferente entra na cavidade pélvica, onde desemboca no colículo seminal, na porção prostática da uretra pélvica.

Glândulas genitais acessórias 

O sêmen é formado por espermatozoides e pelas secreções produzidas pelo conjunto de glândulas genitais acessórias do macho. Estas glândulas estão localizadas nas proximidades da porção pélvica da uretra. Na cutia basicamente se identificam:

  • A ampola, dilatação do ducto deferente antes de desembocar na uretra. Essa glândula é difícil de diferenciar macroscopicamente;

  • A glândula vesicular, com um aspecto claramente contornado, que desemboca no ducto deferente próximo do colículo seminal;

  • A próstata, bem volumosa e difusa, que se localiza sobre a uretra e bem próxima a glândula vesical;

A glândula bulbouretral se localiza na extremidade caudal da porção pélvica da uretra, antes de formar parte do pênis.

Pênis 

O pênis ou órgão copulador se origina no arco isquiático com dois pilares que se unem e formam a raiz do pênis que continua caudalmente; segue como corpo do pênis que termina com a glande. 

O pênis da cutia é formado por dois corpos cavernosos e por um corpo esponjoso. Os corpos cavernosos possuem um maior desenvolvimento ao nível dos pilares e do corpo do pênis; e o corpo esponjoso que está localizado no sulco uretral e envolve toda a extensão da uretra. Este pênis possui uma flexura sigmoide característica. A glande do pênis é formada por corpo esponjoso. Na extremidade distal da glande do pênis se localiza o óstio uretral externo e o processo uretral. Esta espécie possui duas formações externas espiculadas cornificadas na posição dorsolateral do corpo do pênis. Devido essas observações macroscópicas não foi possível classificar o pênis da cutia como fibroelástico ou musculocavernoso.

CORAÇÃO E GRANDES VASOS

O coração dos mamíferos apresenta quatro câmaras:

  • Átrio esquerdo;

  • Ventrículo esquerdo;

  • Átrio direito;

  • Ventrículo direito.

O átrio esquerdo do coração recebe o sangue oxigenado dos pulmões. O sangue segue ao ventrículo esquerdo e dele, por meio da aorta e suas ramificações, se distribui aos diferentes aparelhos e sistemas orgânicos. O sangue venoso retorna ao átrio direito do coração por meio das veias cava cranial e cava caudal. O sangue flui do átrio direito ao ventrículo direito que o impulsiona ao tronco pulmonar e às artérias pulmonares para alcançar os pulmões. Finalmente, as veias pulmonares transportam o sangue oxigenado ao átrio esquerdo.

Na cutia o padrão de ramificação do arco aórtico é semelhante ao dos ruminantes domésticos. O arco aórtico origina unicamente o tronco braquiocefálico. Por sua vez, o tronco braquiocefálico emite ambas as artérias carótidas comuns, e as artérias subclávias esquerda e direita.

BAÇO 

O baço é um órgão linfoide que se localiza próximo à curvatura maior do estômago, ao qual está unido por meio do ligamento gastroesplênico. Possui coloração vermelha escura e formato triangular, com a extremidade dorsal de maior tamanho que a ventral. Pode se identificar uma face parietal e uma face visceral. O baço da cutia possui hilo difuso ao longo da face visceral, por onde penetram as ramificações da artéria e veia esplênicas.

CRÂNIO