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Atlas de Anatomia Veterinária

Pacarana (Dinomys branickii)

DESCRIÇÃO GERAL

Nome científico: Dinomys branickii

Nome comum: Pacarana.

Estado de conservação: IUCN VU A2cd/ CITES Ap I

 

Descrição: Comprimento corporal: 73-80 cm; Peso: 10-15 Kg.

 

Distribuição: Florestas tropicais do oeste da bacia Amazônica e nas cordilheiras dos Andes de Venezuela e Colômbia. Também é encontrada no Equador, Peru, Brasil e Bolívia.

 

Hábitat: Floresta alta e áreas mais elevadas da floresta baixa. Hábitos solitários e noturnos.

 

Reprodução: Estacionalidade: Desconhecida.

Gestação: 222-280 dias.

Prolificidade: 2 crias por gestação.

 

Hábitos alimentares: Principalmente caules macios, folhas, frutos e sementes.

 

APARELHO DIGESTÓRIO

Língua

A língua é um órgão muscular que se divide em ápice, corpo e raiz. A língua da pacarana possui papilas mecânicas (lenticulares, filiformes e cônicas) e papilas gustativas (fungiformes, folhadas e circunvaladas).

 

Estômago

O estômago da pacarana é monocavitário, ligado ao esôfago pelo cárdia, e disposto no antímero esquerdo. O estômago se une caudalmente ao piloro duodenal localizado no antímero direito.

A curvatura menor do estômago se localiza caudoventralmente e a curvatura menor, craniodorsalmente. No estômago é possível identificar um fundo pouco desenvolvido, um corpo e uma porção pilórica composta pelo antro e o canal pilórico.

 

Intestino

O intestino dos herbívoros atinge um comprimento 25 vezes maior do que o comprimento corporal, sendo consideravelmente mais longo que nos carnívoros, possui apenas um comprimento de três a quatro vezes do comprimento corporal. Na pacarana, provavelmente devido ao elevado consumo de plantas, o comprimento total do intestino alcança 7,6 vezes o comprimento corporal.

 

Intestino delgado

O intestino delgado se localiza entre o piloro e o óstio ileal. Suas alças estão situadas no espaço entre o fígado e o estômago (cranialmente) e a entrada da pelve (caudalmente). É composto por três porções:

  • Duodeno: a porção mais proximal do intestino delgado que se estende entre o piloro e a flexura duodenojejunal;

  • Jejuno: é a porção de maior comprimento;

  • Íleo: é um pequeno segmento que se une ao ceco por meio da prega ileocecal. Sua espessa camada muscular evita o refluxo do conteúdo intestinal a partir do intestino grosso.

 

Intestino grosso

O intestino grosso se estende desde o óstio ileal até o ânus. Suas três porções são:

  • Ceco. É a porção mais variável do intestino grosso. O ceco da pacarana é muito grande (aproximadamente 30 cm de comprimento). Os mamíferos carnívoros puros possuem um ceco pequeno em relação ao tamanho do intestino grosso, ou podem estar ausentes. Os herbívoros, no entanto, possuem um ceco e um cólon bem desenvolvidos. O volume cecal geralmente está relacionado com a proporção de celulose do alimento e isso justificaria seu grande tamanho, no comprimento e espessura, do ceco da pacarana. As dimensões relativas do ceco nesta espécie são similares às observadas em outros roedores amazônicos, como a cutia e a paca. Diferente da paca, o ceco da pacarana não possui tênias e nem haustras;

  • Cólon. É formado pelo cólon ascendente, transverso e descendente. Como nos herbívoros, o cólon ascendente da pacarana é bem desenvolvido. Origina-se posterior ao ceco e atinge inicialmente uma espessura considerável para formar a ampola do cólon ascendente. No entanto, diferente da paca e da cutia, o cólon ascendente da pacarana não apresenta alça espiral. Por outro lado, a superfície externa do cólon ascendente da pacarana apresenta duas bandas ou tênias que levam a formação de duas fileiras de saculações ou haustras; o cólon transverso é curto e continua após o cólon descendente, bem longo e sinuoso, que alcança a entrada da cavidade pélvica. Tanto o cólon transverso como o descendente apresentam diâmetro relativamente estreito, similar ao do jejuno;

  • Reto. Está localizado na cavidade pélvica e termina no canal anal.

Na Tabela 23 encontram-se as dimensões (em cm) das diferentes porções do aparelho digestório da pacarana.

 

Fígado

O fígado é protegido pelas costelas na porção intratorácica da cavidade abdominal. Possui uma face diafragmática, em contato com o diafragma, e uma face visceral, em contato com o estômago.

Os lobos hepáticos se encontram separados por incisuras ou fissuras interlobares. O padrão lobar do fígado de pacarana é o seguinte:

  • Lobo lateral esquerdo;

  • Lobo medial esquerdo;

  • Lobo quadrado;

  • Lobo caudado, que se diferencia o processo papilar e o processo caudado;

  • Lobo medial direito;

  • Lobo lateral direito.

A vesícula biliar se encontra entre o lobo quadrado e o lobo medial direito.

 

APARELHO RESPIRATÓRIO

A troca de gases entre o ar e o sangue ocorre nos alvéolos pulmonares. Até chegar aos alvéolos, o ar inspirado atravessa a cavidade nasal, nasofaringe, laringe, traqueia e brônquios, incluindo as diferentes subdivisões que estes possuem.

 

Laringe

A laringe é um órgão tubular cartilaginoso que comunica a nasofaringe com a traqueia. A laringe da pacarana possui, entre as pregas vestibular e vocal, um profundo ventrículo laríngeo.

 

Traqueia

A traqueia é formada por um conjunto de cartilagens unidas entre si pelos ligamentos anulares. As cartilagens traqueais estão abertas dorsalmente, embora as extremidades permaneçam unidas mediante o músculo traqueal. As cartilagens traqueais da pacarana possuem uma secção em forma de U onde o diâmetro horizontal é maior que o vertical. O músculo traqueal se insere internamente às extremidades da cartilagem traqueal. A traqueia termina bifurcando-se em dois curtos brônquios principais.

 

Árvore brônquica e pulmões

A árvore brônquica é formada pelas sucessivas divisões dos brônquios principais. Cada um dos brônquios principais se ramifica em diversos brônquios lobares. Esses, acompanhados por artérias, veias, vasos linfáticos e ramos nervosos, penetram no pulmão atravessando o hilo do órgão. O conjunto de estruturas que atravessam o hilo pulmonar recebe a denominação de raiz do pulmão.

A divisão dos brônquios principais em brônquios lobulares determina o padrão de lobação do pulmão. A lobação dos pulmões da pacarana é a seguinte:

Pulmão esquerdo:

  • Lobo cranial, dividido em partes cranial e caudal;

  • Lobo caudal.

Pulmão direito:

  • Lobo cranial;

  • Lobo médio;

  •  Lobo caudal;

  •  Lobo acessório.

No pulmão é possível diferenciar uma superfície de contato com a parede costal (face costal), uma superfície voltada ao mediastino (face medial) e uma face diafragmática que se relaciona com o diafragma.

 

APARELHO URINÁRIO

Rins

Os rins são órgãos retroperitoniais que se dispõem dorsalmente na cavidade abdominal e em ambos os antímeros da coluna vertebral. O rim direito, que é mais cranial que o esquerdo, está em contato com o lobo lateral direito e o processo caudado do fígado.

O córtex renal é de cor marrom, e como em outros roedores, no rim da pacarana, as pirâmides da medula se encontram fusionadas. Além disso, observa-se a presença da crista renal, que se mantém em estreita relação com a pelve renal. Devido o córtex não ser dividido externamente e que não apresenta pirâmides renais bem diferenciadas, esse rim se classifica como liso e unipiramidal.

Na borda medial do rim se encontra o hilo renal, onde se reconhecem as estruturas que entram (artéria renal) e saem (veia renal e ureter) do rim. Através do hilo chega-se ao seio renal, onde está disponível a pelve renal.

 

Ureter e bexiga urinária

O ureter é uma estrutura tubular que transporta a urina da pelve renal para a bexiga urinária, onde é armazenada. A bexiga urinária está localizada no assoalho da cavidade pélvica, onde se insere até o abdome; quando repleta, se estende amplamente na cavidade abdominal.

 

Uretra

A uretra é um tubo de excreção da urina para o meio exterior. A uretra feminina é curta e desemboca no óstio uretral externo, localizado ventralmente entre a vagina e o vestíbulo da vagina. A uretra masculina possui uma parte pélvica e outra peniana, é o ducto excretor da urina e do sêmen.

 

APARELHO MASCULINO

Os órgãos genitais masculinos são responsáveis pela formação, maturação, transporte e emissão das células germinais masculinas ou espermatozoides.

 

Testículos 

Os testículos são órgãos endócrinos produtores de espermatozoides. Nos mamíferos adultos os testículos são geralmente extra-abdominais e se localizam na região inguinal dentro do escroto. Os testículos dos mamíferos estão envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo, a túnica albugínea. O tecido conjuntivo também se acumula na zona central do testículo, onde forma o mediastino testicular; do mediastino convergem septos de tecido conjuntivo que se estendem até a túnica albugínea. Entre os septos estão dispostos lóbulos no parênquima testicular, que incluem os túbulos seminíferos, onde são gerados os espermatozoides. Os túbulos seminíferos confluem, dentro do mediastino testicular na rede testicular. Essa última continua mediante os ductos eferentes, que saem do testículo para se inserir na cabeça do epidídimo.

 

Epidídimo

O epidídimo é um órgão unido ao testículo, os espermatozoides são maturados e armazenados até a ejaculação. É constituído por cabeça, corpo e cauda. Na cabeça do epidídimo se localizam os ductos eferentes advindos da rede testicular, que confluem para formar o ducto epididimário que é bastante tortuoso e está disposto no corpo e na cauda do epidídimo.

A união do testículo e corpo do epidídimo forma o escroto. Depois da cauda do epidídimo, o ducto epididimário continua no ducto deferente. O ligamento da cauda do epidídimo une esta estrutura às túnicas testiculares. O ligamento próprio do testículo mantém unidos o testículo com a cauda do epidídimo.

 

Ducto deferente

O ducto epididimário continua no ducto deferente, que prossegue no cordão espermático. O cordão espermático, além do ducto deferente, contém a artéria testicular, o plexo pampiniforme (equivalente à veia testicular), e fibras simpáticas, vasos linfáticos e o processo vaginal. O cordão espermático passa através do canal inguinal e entra na cavidade abdominal, onde seus componentes se separam. O ducto deferente entra na cavidade pélvica, onde desemboca no colículo seminal, na porção prostática da uretra pélvica.

 

Glândulas genitais acessórias 

O sêmen é formado por espermatozoides e pelas secreções produzidas pelo conjunto de glândulas genitais acessórias do macho. Estas glândulas estão localizadas nas proximidades da porção pélvica da uretra.

Na pacarana basicamente se identificam:

  • A ampola, dilatação do ducto deferente antes de desembocar na uretra. Essa glândula é difícil de diferenciar macroscopicamente;

  • A glândula vesicular, com um aspecto claramente contornado, que desemboca no ducto deferente próximo do colículo seminal;

  • A próstata, bem volumosa e difusa, que se localiza sobre a uretra e bem próxima a glândula vesical;

  • A glândula bulbouretral se localiza na extremidade caudal da porção pélvica da uretra, antes de formar parte do pênis.

 

Pênis 

O pênis ou órgão copulador se origina no arco isquiático com dois pilares que se unem e formam a raiz do pênis que continua caudalmente; segue como corpo do pênis que termina com a glande.

O pênis da pacarana é formado por dois corpos cavernosos e por um corpo esponjoso. Os corpos cavernosos possuem um maior desenvolvimento ao nível dos pilares e do corpo do pênis; e o corpo esponjoso que está localizado no sulco uretral e envolve toda a extensão da uretra. Este pênis possui uma flexura sigmoide característica. A glande do pênis é formada por corpo esponjoso. Na extremidade distal da glande do pênis se localiza o óstio uretral externo e o processo uretral. Esta espécie possui duas formações externas espiculadas cornificadas na posição dorsolateral do corpo do pênis. Baseado nas observações macroscópicas não foi possível classificar o pênis da pacarana como fibroelástico ou músculocavernoso.

 

CORAÇÃO E GRANDES VASOS

O coração dos mamíferos possui quatro câmaras:

  • Átrio esquerdo;

  • Ventrículo esquerdo;

  • Átrio direito;

  • Ventrículo direito.

O átrio esquerdo do coração recebe o sangue oxigenado dos pulmões. O sangue entra no ventrículo esquerdo onde, por meio da aorta e suas ramificações, se distribui aos diversos aparelhos e sistemas orgânicos. O sangue venoso retorna ao átrio direito do coração mediante as veias cava cranial e cava caudal. O sangue flui do átrio direito ao ventrículo direito que o impulsiona até o tronco pulmonar e as artérias pulmonares para alcançar os pulmões. Finalmente, as veias pulmonares transportam o sangue oxigenado para o átrio esquerdo.

Semelhante a paca e a cutia, na pacarana o arco aórtico origina o tronco braquiocefálico. Por sua vez, o tronco braquiocefálico emite as artérias subclávias esquerda e direito e o tronco bicarotídeo, de onde se ramificam as artérias carótidas comuns esquerda e direita.

 

BAÇO

O baço é um órgão linfoide que está localizado ao longo da curvatura maior do estômago, ao qual está unido por meio do ligamento gastroesplênico. Possui coloração vermelho escuro e formato aproximadamente triangular, com a extremidade dorsal maior que o ventral. Pode-se identificar uma face diafragmática e uma visceral. O baço da pacarana possui hilo difuso ao longo da face visceral, por onde penetram os ramos da artéria e veia esplênicas.