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Atlas de Anatomia Veterinária

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)

DESCRIÇÃO GERAL

Nome científico: Myrmecophaga tridactyla

Nome comum: Tamanduá-bandeira.

Estado de Conservação: IUCN VU A2c/ CITES Ap II

 

Descrição: Comprimento corporal: 100-120 cm; Comprimento da cauda: 60-90 cm; Peso: 25-39 kg.

 

Distribuição: Originalmente na América Central e do Sul, embora tenha desaparecido de vários países da América Central.

 

Hábitat: Grande variedade de habitats, em savanas, campos, pântanos, florestas tropicais, florestas secas, sendo mais frequente em áreas abertas com abundância de formigas e cupins, que essencialmente compõem sua dieta. Hábitos solitários, diurnos em áreas desabitadas e noturnos em áreas densamente povoadas por seres humanos.

 

Reprodução: Sazonalidade: Não existem dados conclusivos.

Gestação: 190 dias.

Prolificidade: 1 filhote por gestação.

 

Hábitos alimentares: Principalmente formigas e cupins.

 

APARELHO DIGESTÓRIO

 

 

 

 

 

 

Língua

O tamanduá-bandeira pertence ao grupo de vermilinguos (latim para "língua em forma de verme"), considerando-se esta como uma das suas principais características. A língua do tamanduá-bandeira tem uma secção cilíndrica e pode medir até 50 cm. A morfologia da língua, juntamente com a saliva com capacidade adesiva o torna especialista na obtenção de seu alimento (formigas e cupins) sem destruir os ninhos.

A língua se divide em raiz, corpo e ápice. O ápice apresenta um processo muito desenvolvido e a raiz é formada por dois pilares linguais. As papilas gustativas mais desenvolvidas são as papilas circunvaladas.

Estômago

O estômago do tamanduá-bandeira é monocavitário, ligado ao esôfago pelo cárdia, e disposto no antímero esquerdo. O estômago se une caudalmente ao piloro duodenal localizado no antímero direito.

A curvatura maior do estômago se localiza caudoventralmente, enquanto que a curvatura menor está disposta craniodorsalmente. No estômago do tamanduá-bandeira é possível identificar um fundo, um corpo e uma porção pilórica bem desenvolvida. Essa espécie apresenta uma parte pilórica ocupada completamente por um esfíncter pilórico muito desenvolvido, estreitando de forma acentuada o canal pilórico. Toda a mucosa do estômago tem caráter glandular.

 

Intestino

O intestino dos carnívoros atinge de três a quatro vezes o comprimento do corpo, sendo consideravelmente mais curto do que o dos herbívoros, que chega a ter um comprimento 25 vezes maior do que o comprimento do corpo. No tamanduá-bandeira, que é insetívoro, o comprimento total do intestino atingiu 6,6 vezes o comprimento corporal médio.

 

Intestino delgado

O intestino delgado se localiza entre o piloro e o óstio ileal. Suas alças estão situadas no espaço compreendido entre o fígado e o estômago, cranialmente, e a entrada da pelve, caudalmente. É formado por três porções:

  • Duodeno: a porção mais proximal do intestino delgado, estendendo-se entre o piloro e a flexura duodeno-jejunal;

  • Jejuno: é a porção de maior comprimento;

  • Íleo: é um pequeno segmento que se relaciona com o cólon por meio do óstio ileal.

Sua espessa camada muscular impede o refluxo de conteúdo do intestino grosso.

 

 

 

 

 

 

Intestino grosso

O intestino grosso se estende desde a abertura do íleo até o ânus. O tamanduá-bandeira não possui ceco. Na verdade, nos mamíferos o ceco é a parte mais variável do intestino grosso, sendo o volume, geralmente, relacionado com a proporção de celulose nos alimentos, exceto nos mamíferos capazes de realizar processos fermentativos, no estômago policavitário. As porções do intestino grosso presentes no tamanduá-bandeira são:

  • Cólon. O cólon do tamanduá-bandeira é muito simples, constituído pelo cólon ascendente, curto e disposto à direita da cavidade abdominal, caracteriza-se por uma forte dilatação no seu início que lembra a aparência de um ceco; cólon transverso, disposto transversalmente atrás do estômago e passando da direita para a esquerda da cavidade abdominal; e cólon descendente, é mais longo e chega até a entrada da cavidade pélvica;

  • Reto. Está localizado na cavidade pélvica e termina no canal anal.​

 

 

 

 

 

 

Fígado

O fígado é protegido pelas costelas na porção intratorácica da cavidade abdominal. Apresenta uma face diafragmática em contato com o diafragma, e uma face visceral em contato com o estômago.

No tamanduá-bandeira os lobos hepáticos são separados por incisuras ou fissuras interlobares especialmente marcados, permitindo o deslizamento dos lobos uns entre si durante grandes movimentos de extensão e de flexão do tronco. O padrão lobar do fígado no tamanduá-bandeira é o seguinte:

  • Lobo lateral esquerdo;

  • Lobo medial esquerdo;

  • Lobo quadrado;

  • Lobo lateral direito;

  • Lobo medial direito.

A vesícula biliar está localizada entre o lobo quadrado e o lobo medial direito.

 

APARELHO RESPIRATÓRIO

A troca gasosa entre o ar e o sangue ocorre nos alvéolos pulmonares. Para alcançar os alvéolos, o ar inspirado atravessa a cavidade nasal, nasofaringe, laringe, traqueia e brônquios, incluindo as diferentes subdivisões que eles apresentam.

 

Laringe

A laringe é um órgão tubular cartilaginoso que comunica a nasofaringe com a traqueia. A laringe do tamanduá-bandeira não apresenta ventrículo laríngeo nem processo cuneiforme na cartilagem aritenoide, e apresenta apenas uma prega vocal.

 

Traqueia

A traqueia é formada por um conjunto de cartilagens unidas entre si pelos ligamentos anulares. As cartilagens, ou anéis traqueais, estão abertos dorsalmente, embora as extremidades sejam unidas internamente pelo músculo traqueal. As cartilagens traqueais do tamanduá-bandeira apresentam uma secção circular. A traqueia termina bifurcando-se em dois curtos brônquios principais.

 

Árvore brônquica e pulmões

A árvore brônquica é formada por sucessivas divisões dos brônquios principais. Cada um dos brônquios principais se ramifica em vários brônquios lobares. Esses, acompanhados de artérias, veias, vasos linfáticos e ramos nervosos penetram no pulmão através do hilo do órgão. O conjunto de estruturas que atravessa o hilo pulmonar recebe o nome de raiz do pulmão.

A divisão dos brônquios principais em brônquios lobares determina o padrão de lobação do pulmão. A lobação do pulmão do tamanduá-bandeira é a seguinte:

Pulmão Esquerdo:

  • Lobo cranial;

  • Lobo caudal.

Pulmão Direito:

  • Lobo cranial;

  • Lobo médio;

  • Lobo caudal;

  • Lobo acessório.

No pulmão é possível identificar uma superfície de contato com a parede costal (face costal), uma superfície voltada para o mediastino (face medial) e uma face diafragmática que se relaciona com o diafragma.​

 

APARELHO URINÁRIO

 

Rins

Os rins são órgãos retroperitoneais, dispostos dorsalmente na cavidade abdominal e em ambos os antímeros da coluna vertebral. O rim direito, que é mais cranial que o esquerdo, não entra em contato com o fígado.

Os rins do tamanduá-bandeira têm formato de feijão e o córtex apresenta coloração marrom. A medula renal parece estar subdividida em segmentos de forma piramidal ou pirâmides renais. A base de cada pirâmide renal contata com o córtex, e o vértice constitui a papila renal. A papila renal se mantém, aparentemente, em estreita relação com o cálice renal e a pelve renal. Não haveria, portanto, crista renal.

Devido os lobos dos rins não ser visibilizados externamente, o rim do tamanduá-bandeira é classificado com liso. A presença de pirâmides na medula renal, assim como de papilas e cálices renais permitem tipificar o rim como multipiramidal.

Na borda medial do rim se encontra o hilo renal, onde se reconhecem estruturas que entram (artéria renal) e saem (veia renal e ureter) do rim. Através do hilo chega-se ao seio renal, onde se localiza a pelve renal.

 

Ureter e bexiga urinária

O ureter é uma estrutura tubular, que transporta a urina da pelve renal para a bexiga urinária, onde é armazenada. A bexiga urinária está localizada na base da cavidade pélvica, onde se introduz até o abdômen; quando repleta, se distende amplamente na cavidade abdominal.

 

Uretra

A uretra é o tubo de excreção de urina para o exterior. A uretra feminina é curta e desemboca no óstio uretral externo, localizada ventralmente entre a vagina e o vestíbulo da vagina. A uretra masculina é o ducto excretor da urina e sêmen, possui uma porção pélvica e uma porção peniana.

 

APARELHO REPRODUTOR FEMININO

Ovários

Os ovários produzem os ovócitos ou gametas femininos, os quais são também são armazenados e maturados nesta estrutura. Além disso, os ovários atuam como uma glândula endócrina. Os ovários do tamanduá-bandeira se localizam na posição dorsal na cavidade abdominal. As principais formações funcionais do ovário (folículos e corpos lúteos) não são observáveis externamente, pois não estão salientes ou visíveis no córtex do ovário.

 

Tuba uterina

A tuba uterina é a estrutura tubular que, após a ovulação, transporta os oócitos desde o ovário até o útero. Na tuba uterina ocorre a fecundação. A tuba uterina, ou oviduto, está inserida no mesossalpinge, que é uma dobra do peritônio derivado do ligamento largo do útero.

O mesossalpinge, juntamente com mesovário e o ligamento próprio do ovário, participam na formação da bolsa ovárica. No tamanduá-bandeira a bolsa ovárica não chega a envolver o ovário.

 

Útero

O útero abriga o embrião e o feto em desenvolvimento. As glândulas endometriais produzem secreções que nutrem o embrião antes da formação da placenta.  O útero do tamanduá-bandeira é simples, pois não apresenta cornos uterinos. Os dois ovidutos desembocam em um único corpo uterino de tamanho reduzido, onde ocorrerá a gestação. O colo do útero (ou cérvix) é caracterizado por apresentar espessamento da mucosa sob a forma de dobra circular e parede muscular espessa que isola o útero do exterior, de modo que a luz do canal cervical, só se abre em momentos como o parto e o cio.

 

Vagina

A vagina é o órgão copulador feminino e estende-se desde o colo do útero (óstio externo do útero) para a desembocadura da uretra (óstio uretral externo). Mais caudalmente, o vestíbulo da vagina é compartilhado pelos tratos genital e urinário.

 

Monte pubiano

Monte pubiano é formado por dois lábios que são unidos nas comissuras vulvares laterais esquerda e direita, de modo que a abertura da vagina é alongada no seu plano vertical. O clitóris, que tem uma estrutura em parte homóloga ao pênis, se encontra ventralmente na fossa clitoriana.

 

Placentação

A placenta de mamíferos eutérios é uma estrutura formada por aposição de membranas fetais e tecidos maternos. Sua principal função é regular a troca fisiológica entre o feto e a mãe, mas também age como um importante órgão endócrino durante a gravidez.

A placenta do tamanduá-bandeira é do tipo endoteliocorial, pois conecta o cório fetal com o endotélio dos vasos uterinos. A perda endometrial ocorre durante a formação da placenta e parto, por isso elas são decíduas. Pela forma de aposição do tecido fetais e maternos, a placenta de classifica como discoidal.

 

APARELHO REPRODUTOR MASCULINO

Os órgãos genitais masculinos são responsáveis pela formação, maturação, transporte e emissão de células germinais masculinas, os espermatozoides.

 

Testículos

Os testículos são órgãos endócrinos produtores de espermatozoides. Nos mamíferos adultos os testículos são geralmente extra-abdominais e se localizam na região inguinal dentro do escroto. Os testículos dos mamíferos estão envoltos por uma fina cápsula de tecido conjuntivo, a túnica albugínea. O tecido conjuntivo também se acumula na zona central do testículo, onde forma o mediastino testicular; do mediastino convergem septos de tecido conjuntivo que se estendem até a túnica albugínea. No tamanduá-bandeira, a organização não permite que o mediastino seja observado macroscopicamente. Entre os septos estão dispostos lóbulos no parênquima testicular, que incluem os túbulos seminíferos, onde são gerados os espermatozoides. Os túbulos seminíferos confluem, dentro do mediastino testicular na rede testicular. Esta última continua mediante os ductos eferentes, que saem do testículo para se inserir na cabeça do epidídimo.

 

Epidídimo 

O epidídimo é um órgão unido ao testículo, os espermatozoides são maturados e armazenados até a ejaculação. É constituído por cabeça, corpo e cauda. Na cabeça do epidídimo se localizam os ductos eferentes advindos da rede testicular, que confluem para formar o ducto epididimário que é bastante tortuoso e está disposto no corpo e na cauda do epidídimo.

A união do testículo e corpo do epidídimo forma o escroto. Depois da cauda do epidídimo, o ducto epididimário continua no ducto deferente. O ligamento da cauda do epidídimo une esta estrutura às túnicas testiculares. O ligamento próprio do testículo mantém unidos o testículo com a cauda do epidídimo.

 

Ducto deferente 

O ducto epididimário continua no ducto deferente, que prossegue no cordão espermático. O cordão espermático, além do ducto deferente, contém a artéria testicular, o plexo pampiniforme (equivalente à veia testicular), fibras simpáticas, vasos linfáticos e o processo vaginal. O cordão espermático passa através do canal inguinal e entra na cavidade abdominal, onde seus componentes se separam. O ducto deferente entra na cavidade pélvica, onde desemboca no colículo seminal, na porção prostática da uretra pélvica.

 

Glândulas genitais acessórias

O sêmen é formado por espermatozoides e pelas secreções produzidas pelo conjunto de glândulas genitais acessórias do macho. Essas glândulas estão localizadas nas proximidades da porção pélvica da uretra. No tamanduá-bandeira, basicamente diferem:

  • Embora não tenha sido observada macroscopicamente, é provável que o tamanduá-bandeira possua ampola do ducto deferente, uma dilatação do ducto antes de desembocar na uretra;

  • A glândula vesicular, de formato ovalado, que desemboca no canal deferente perto do colículo seminal;

  • A próstata, de pequeno tamanho, localizada sobre a uretra e bexiga, próxima da glândula vesicular.

Pênis

No caso do tamanduá-bandeira o pênis não é uma estrutura externa. Apresenta tamanho muito pequeno, que quase pode ser considerado como uma simples abertura externa da uretra desembocando uma área urogenital que lembra o vestíbulo da vagina da maioria dos mamíferos. Em função das evidências macroscópicas é muito difícil classificar o pênis do tamanduá-bandeira no âmbito da classificação de musculocavernoso ou pênis fibro-elástico.

 

CORAÇÃO, GRANDES VASOS E BAÇO

O coração dos mamíferos possui quatro cavidades:

  • Átrio esquerdo;

  • Ventrículo esquerdo;

  • Átrio direito;

  • Ventrículo direito.

O átrio esquerdo do coração recebe o sangue oxigenado dos pulmões. O sangue entra no ventrículo esquerdo e a partir daí por meio da aorta e seus ramos, é distribuído aos diferentes aparelhos e sistemas orgânicos. O sangue venoso retorna para o átrio direito do coração por meio das veias cava cranial e caudal.

O sangue flui do átrio direito para o ventrículo direito que o impulsiona até o tronco pulmonar e artérias pulmonares para alcançar os pulmões. Finalmente, as veias pulmonares transportam o sangue oxigenado para o átrio esquerdo. No tamanduá-bandeira, o arco aórtico origina a artéria subclávia esquerda. O tronco braquiocefálico, por sua vez, emite a artéria subclávia direita e o tronco bicarotídeo. O tronco bicarotídeo origina as artérias carótidas comum direita e esquerda.

 

BAÇO

O baço é um órgão linfoide que se situa ao longo da curvatura maior do estômago, ao qual está vinculado por meio do ligamento gastroesplênico. Apresenta coloração vermelha escura e formato de L, com a porção horizontal na posição dorsal. Pode-se diferenciar uma face diafragmática e uma face visceral. O baço do tamanduá-bandeira apresenta hilo difuso ao longo da face visceral, por onde entram os ramos da artéria e veia esplênica.